-Que tolice Gaspar, é bonito e o que
conta é a informação. Para que gastar dinheiro para por abaixo e construir
outro se este está bom?
-Oras Antônio...
-Senhores, senhores! - Exclama a Sra.
M. em tom enérgico. - Reforcem a guarda, o Castelo foi invadido. Entraram na
área de produção.
Eles se entreolham atônitos.
- E como a senhora fugiu? - Pergunta
Antônio, enquanto Gaspar avisa o resto da guarnição.
-Fugir? De que o senhor está falando?
-A senhora acabou de dizer que a
cozinha foi invadida... E a senhora está aqui... E lá só há mulheres... A senhora só
pode ter fugido para buscar ajuda e as mulheres ficaram amedrontadas e correndo
perigo...
-Não diga bobagem Antônio. Com
certeza a pessoa que ordenou a invasão não tem noção de perigo ou realmente não
gosta de seus homens. Não são as mulheres que me preocupam, são os homens! Há
cem mulheres na cozinha, armadas até os dentes, com os mais variados
utensílios, fora as sete Marias e a Karina, que, vez por outra, brada
energicamente uma imensa colher de pau contra eles.
Chegando ao Castelo não se diria que
algo de estranho acontece, Pedrinho está sentado lendo, os livros de uma
história por dia, comendo coxinha e tomando suco de morango. Beatriz dorme
calmamente no colo de seu pai. A não ser pela falta da rainha...
A Sra. M. resolve não perguntar por
ela para não chamar a atenção de Pedrinho, é tão difícil vê-lo quieto. Ainda em
companhia de Antônio se encaminha à área de produção. A principal atividade
econômica do Reino é a produção de chocolates e o Castelo tem a maior fábrica.
Exporta petits gateaus congelados e
sua receita é invejada no mundo inteiro.
Descendo para a produção já começam a
ouvir vozes. A Rainha, Diana; a Secretária de Defesa, Maria Padilha; o
Conselheiro, Pai Oma e a diplomata, Maria das Almas. A Sra. M. pergunta por
Karina e Maria Padilha prontamente responde.
-Sádica como é, não perderia por nada
a oportunidade de lidar com os "meliantes". Já combinamos o que era
preciso, estávamos apenas lhes esperando.
Antônio fica corado, muito mais do
que desejara, afinal, como responsável pela guarda, se sente responsável pela
invasão. A Rainha percebeu seu mal estar e o tranquilizou. Graças à invasão e
aos atabalhoados invasores, ela poderá descobrir quem orquestrou tudo e que,
possivelmente, esteja por trás de algumas ameaças ao Reino.
-Vamos lá, - disse Maria Padilha ao
avistar a guarda chegando, - vamos convidar nossos queridos e desajeitados
visitantes a se hospedarem conosco por uns dias. Vamos, levem-nos aos quartos
de hóspedes e assegurem-se de que permanecerão por lá. - A produção parou. Enquanto
o espaço físico era limpo com água, vinagre e grandes turmalinas pretas, que
foram colocadas em pontos estratégicos para reequilibrar o nível vibracional do
ambiente. Pois a turmalina preta absorve a energia negativa e a devolve em
forma de amor incondicional. As agitadas funcionárias da produção eram
atendidas por Amanda e Metriak na Sala Ametista. A ametista transmuta a energia
negativa e ajuda a cortar laços psíquicos. Elas serão limpas, tranquilizadas,
harmonizadas e terão seu nível vibracional aumentado, para só então,
reiniciarem a produção. Enquanto isto, no Salão de Cristal a Rainha está
reunida às Marias, Sra. M., Pai Oma e Karina. Discutem sobre o ocorrido. Entram
Antônio, Gaspar e os homens que transferiram os invasores para aguardar novas
ordens sobre os dias que virão. Antônio conta aos presentes o que ouviu dos
invasores e de sua insolência para com o reino. Finaliza dizendo que os nove
estão bem acomodados e muito bem cuidados. Ao que Gaspar dispara:
-Nove? Mas eles eram em dez...
Antônio quase tem uma síncope, e,
vermelho como nunca, pergunta entre dentes:
-Como foi que vocês conseguiram
perder uma criatura da Cozinha aos Dormitórios?
Um começo de alvoroço foi sentido e
logo contido por Maria das Almas.
-Senhores por gentileza acalmem-se.
Não há necessidade de buscas, tampouco de agitação. E sim, haviam dez pessoas e
não, não houve fuga. Escolhemos o menos estafermo deles para deixá-lo fugir.
Desta maneira pretendemos saber quem os enviou.
Os homens ficaram sem entender nada.
Quando Gaspar, tomado de uma coragem súbita pergunta:
-Mas ele chegou a pegar alguma coisa?
Sim, responde a Rainha, a receita do Petit Gateau.
Esta notícia foi forte demais para
Antônio que desmaia em questão de segundos.
Gaspar diz quase que simultaneamente,
"Estamos perdidos, a receita secreta..."
A Rainha ri e diz que a receita não é
secreta e que, se a tivessem pedido, ela teria dado.
Os homens da guarda mal podem
acreditar no que estão ouvindo. A Rainha enlouqueceu, só pode.
Ao que ela responde:
-Caríssimos, o segredo não está na
receita, mas no nível vibracional com que é preparada. Percebam todo o cuidado
que temos com nossa área de produção e com o estado vibracional de nossas
funcionárias, que lidam desde a seleção da matéria prima até o produto final.
Ainda aturdido Antônio se levanta e
diz, quase que em um solilóquio, que aquele transtorno todo foi para nada. Até
porque o segredo, mas qual é mesmo o segredo?
-É o amor Antônio, o nível
vibracional que, com a agitação diária acabamos perdendo e que poucos conseguem
acessar, o amor incondicional. E este é o ingrediente que faz toda a diferença.
Pois o amor entre pais, casais, irmãos, amigos sempre tem alguma condição. Ou a
mãe de vocês nunca lhes disse que se não comessem iam ficar fracos, ou que se
não tomassem banho ficariam doentes, ou que se não estudassem nunca seriam
alguém na vida? Pois é, o pulo do gato de nossa receita é o amor. E de nada
adiantaria anotá-lo junto aos outros ingredientes, pois eles simplesmente não
acreditariam nisto.